A Sociedade Tecnológica no Século XXI

A Rede Social e a Democracia

A Rede Social e a Democracia

Post originally published on medium.com.

A Sociedade Tecnológica no Século XXI
(série de 3 partes)

A Rede Social e a Democracia
O que é Virtual?
The Internet is FREE!

História

Quando o Facebook iniciou, existiam poucas redes sociais e elas eram completamente diferentes do que temos hoje.

Para entender melhor como o mundo mudou precisamos entender o que era uma rede social nos anos 2000. Existiam alguns modos de iteração:

  1. Por aplicação
  2. Fórum
  3. Perfil
  4. Wall
  5. Direct Message

E como era o comportamento de um usuário ao navegar nelas? Você tinha seus amigos, se você quisesse saber informações deles, você tinha que perguntar. Você tinha comunidades, você podia interagir nelas. Era a época dos fóruns, havia moderação, ou seja, se uma discussão fugiu do tema, ou se um usuário foi indelicado, o moderador poderia apagar o conteúdo ou parte dele.

Por Aplicação

Antes do advento das redes sociais via HTTP, havia outras formas de iteração por aplicações. Você baixava um software na sua máquina, criava uma conta e interagia. Isso não se configurava uma rede social, porque era necessário uma troca de informação no mundo real. Você tinha que conhecer o ID da pessoal, o famoso número de ICQ. Ou você podia entrar em um canal do mIRC.

Haviam protocolos abertos como o XMPP, qualquer um podia escrever o programa para conversar online em qualquer rede. A internet era livre!

Fórum

Fórum era um tipo de rede social open source. Qualquer site podia instalar um Fórum dentro dele. Existiam inúmeros Fórum PHP fáceis de se configurar, a informação era armazenada pelo próprio site. Ainda não existiam nuvem.

Um fórum era aberto a qualquer usuário, sem nenhuma conexão com outras redes sociais. Um usuário victor.osorio em um fórum, poderia ser o vepo em outro. Tudo que se precisava para criar um usuário em um fórum era…. acesso a internet! Mas isso variava de site para site, em alguns era possível criar apenas com email, em outros era necessário a autorização de um administrador.

O mundo dos fóruns não era livre. Havia moderação, ela era feita por tópicos. Um usuário poderia ser banido de um tópico ou mesmo do fórum. Um conteúdo poderia ser censurado. O objetivo disso era manter a discussão focada. Fóruns não tinham razão de existir sem uma discussão funcional.

Os comentários eram ordenados cronologicamente.

Perfil

Algumas redes sociais eram composta basicamente por paginas de Perfis. A mais conhecida era o myspace. Cada usuário tinha a sua página e customizava ela como desejava. Colocava todas as informações que desejava. Quando alguém queria saber qualquer informação de outra, era preciso navegar até o perfil da mesma. A rede social era passiva, qualquer iteração era uma ação do usuário, até mesmo o consumo da informação.

Wall

Wall, ou muralha em tradução livre ou mural, era uma tradução digital de caderno de recados. Cada usuário tinha seu Wall, qualquer um podia escrever nele. Quando esse usuário queria responder, deveria ir ao mural do outro.

Não havia uma interação direta. Para se entender “uma conversa” era necessário pegar comentário a comentário e ordenar cronologicamente, correndo o risco de um deles ter sido apagado.

Não havia moderação. Não havia algoritmos.

Os comentários eram ordenados cronologicamente.

Direct Message

Direct Message ou Mensagem Direta é o modo de iteração mais recente. Não era possível sem algumas tecnologias como o WebSocket (2010). Você vai ter uma caixa de mensagens e pode interagir diretamente ou em grupo. Tudo em tempo real. Hoje é o que ainda temos.

Definindo Papeis

A partir desse ponto usarei os termos passivo e ativo. Quando me refiro a X era ativo, significa que qualquer X tinha um papel de impulsionar uma ação.

Qualquer iteração nesse texto será representada pelos usuários Alice e Bob. São dois personagens com

Quando o usuário alice@email.com envia um email, ele é ativo. Ele teve a intenção de iteração.

Quando o usuário bob@email.com recebe um email, ele é passivo. Ele não teve a intenção de iteração.

Como o Facebook se tornou A Rede Social

Eu não vi o filme Rede Social e nem pretendo ver!

Até 2006 o Facebook operava naturalmente como um pagina de Perfil e Wall. A Rede Social era Passiva, o usuário era Ativo.

Quando Alice enviava uma mensagem para Bob, significava que Alice teve a intenção de enviar uma mensagem para Bob. Ela:

  1. Abriu o Facebook
  2. Procurou por Bob
  3. Foi ao Mural de Bob
  4. Enviou a mensagem para Bob

Não havia protagonismo da Rede Social.

Em 06/09/2006 o Facebook lançou o que era nomeado News Feed. Ao abrir a rede social, todos os usuário se viram invadidos por um número indesejado de informações. Todos os amigos de Alice iriam saber imediatamente que Alice enviou mensagem para Bob. Naquela época a iteração entre duas pessoas era uma informação privada, houve até protestos contra esse bug.

Isso prejudica a privacidade ainda restante no Facebook. Antes do Feeds, já era fácil perseguir qualquer pessoa na sua escola ou qualquer um na sua lista de amigos; mas com o advento do Feeds, agora é quase impossível não ser “perseguido” ou “perseguir”. A Day Without Facebook.

Com o News Feed, a Rede Social se torna ativa na comunicação entre usuários. No fim demonstrarei como nesse dia a internet e a democracia como havíamos conhecido começou a ruir.

Fora a invasão de privacidade, que hoje nem consideraríamos tão grave assim, não havia nada tão critico. As postagens era ordenadas cronologicamente.

Depois o Facebook criou o conceito de Timeline, timeline substitui o que conhecíamos como Perfil, mas você não define sua timeline, sua timeline te define. Você pode até remover o que está lá, mas se você não remover, estará lá! Você não é o dono da sua linha do tempo.

Em 09/02/2009, o Facebook lança o botão Curtir.

Em 01/10/2010, A Rede Social estreia romantizando a criação do Facebook.

Em 08/05/2012, o Facebook, Inc. faz seu IPO valendo US$ 104 bilhões.

Em algum momento o Facebook extingue silenciosamente a ordenação cronológica dos eventos da News Feed. Em lugar da ordem cronológica, veio o algoritmo.

Como o algoritmo do Facebook funciona?

Não há como sabermos como o algoritmo do Facebook funciona! Essa é uma informação confidencial, mas temos algumas pistas dada pela empresa.

Com a abertura de capital da empresa, o Facebook começou uma corrida para criar lucro. Como uma empresa que provê acesso gratuito a uma rede social gerará lucro?

O Facebook abriu para criação de Perfis de Empresas, uma empresa poderia ter seu perfil onde pessoas poderiam seguir, não dá pra ser amigo de uma empresa. Uma publicação poderia ser impulsionada. Em sua página de Facebook For Business de 14/11/2014, o Facebook descreve como o News Feed funciona. Vamos levantar alguns pontos:

  1. O News Feed exibe apenas o algoritmo diz que o usuário deseja ver.
  2. O algoritmo vai selecionar o conteúdo similar ao que você tende a interagir.
  3. Usuários não gostam de conteúdo promocional, a empresa recomenda que o conteúdo não pareça promocional.
  4. O News Feed sabe o conteúdo e a qualidade do conteúdo exibido ao usuário.
  5. A audiência é clusterizada. Há grupos de públicos alvos já definidos na plataforma.

Possíveis complicadores

Com essa poucas informações podemos saber que o algoritmo seleciona aquilo que ele acredita que desejamos ouvir. Mas isso pode levantar algumas questões:

  1. Como ele decide o que é bom para alguém ouvir?
  2. O que acontece com uma pessoa que só interagem com o conteúdo que gosta?
  3. O que acontece com uma pessoa que não interagem com o conteúdo que não gosta?
  4. E se eu tivesse o poder de mandar uma mensagem apenas para um grupo de pessoas cirurgicamente selecionado?

Graph API

No dia 21 de abril de 2010, o Facebook lança sua Graph API. Para quem não sabe o que é um grafo, podemos reduzir ele a uma rede. Quando você adicionava um aplicativo, e dava permissões para ele, esse aplicativo poderia acessar seus dados: fotos, lista de amigos, posts e curtidas. Com o identificador de cada amigo, ele poderia acessar: fotos, lista de amigos, posts e curtidas desse amigo. E assim por diante.

Logo, apenas acessando um aplicativo dentro do Facebook, você conseguia liberar quase todas as informações para esse aplicativo.

GRATUITAMENTE!!!!!

SEM PERMISSÕES!

Aparentemente inofensivo? Sim.

Mas o que uma empresa poderia fazer com isso? Se usarmos alguns algoritmos de clusterização, podemos separar os usuários pro grupos baseados em curtidas. Assim poderíamos ter separados: grupos políticos, grupos de consumo, grupos étnicos, etc… E se eu quisesse influenciar um grupo desses. Especificamente um grupo desses. Era só direcionar uma noticia para esse grupo. O Facebook permite isso. Aí se iniciou a era da Fake News. É muito difícil não acreditar em uma Fake News se ela diz exatamente aquilo que eu quero ouvir.

Foi isso que fez a Cambridge Analytica empresa envolvida na eleição do Donald Trump e no Brexit.

Democracia: Man In The Middle Attack

Já falamos de Alice e Bob, eles são os usuários de qualquer exemplo de criptografia. Há um ataque chamado Man In The Middle, ou Homem No Meio.

Quando Alice e Bob estão trocando mensagens, pode haver um interlocutor no meio. Então Alice estabelece contato com Pedro, Pedro sabendo que Alice queria falar com Bob estabelece contato com Bob. Cada mensagem que Alice envia para Pedro, Pedro envia para Bob. Cada mensagem que Bob envia para Pedro, Pedro envia para Alice. Assim Alice acredita estar falando com Bob e Bob acredita estar falando com Alice. Até que em algum momento Pedro resolve alterar as mensagens… Nesse momento Bob e Alice ainda acreditarão estar se comunicando, mas na verdade não estão.

Será que podemos sofre esse ataque em nossa sociedade? A responsta é SIM!

Para termos um Man In The Middle Attack precisaríamos:

  1. Que todas as nossa comunicações fosse direcionada para um canal único
  2. Esse canal precisaria pro muito tempo ser transparente, a ponto de que toda a sociedade acredite que ele é confiável
  3. Quando toda a sociedade acreditar que ele é confiável, este poderá começar a interferir nas mensagens!

Infelizmente foi isso que aconteceu…

Pré internet

Antes da internet, os meios de comunicação eram: direto, cartas ou telefone. O direito protegia o sigilo telefônico e as correspondências. Ninguém podia ter esses sigilos violados. E o meio direto era a praça, no fundo éramos obrigados a conviver com quem estava no nosso bairro. Não havia filtro, não havia algoritmo. Um cidadão, independente da sua opinião política acabava convivendo com outros, não pela sua proximidade de ideais, mas pela sua proximidade geográfica: o mesmo bairro, a mesma cidade, o mesmo clube. Ninguém podia fugir e procurar similares para se comunicar.

Dias iniciais da Internet

Quando a internet se inicia, a criação de círculos era muito difícil. O que víamos era a simulação dos círculos já existentes dentro da internet. Para expor ideias, cada um podia escrever um Blog, ou ler artigos. Mas ainda havia poucos meios de compartilhar esses artigos. Você acabava se abastecendo de conteúdo para usar ele em seu meio.

A Rede Social

Quando o Facebook quebra todas as regras de privacidade e expõe as iterações, ele acaba facilitando a troca de ideias. Nesse momento era muito mais fácil interagir na Rede do que na Praça. Quer marcar um churrasco? Cria um evento e chama os amigos. Quer discutir um tema? Cria um grupo. Quer cobrar seu político? Envia uma mensagem na Rede.

O que aconteceu é que a Praça ficou vazia, pois era mais efetivo se comunicar virtualmente. Isso seria um avanço fundamental para a Democracia, se essa rede fosse transparente….

Rede não confiável

Hoje, a maioria das nossas comunicações é por essa rede não confiável. A empresa até comprou vários aplicativos para rastrear todas as nossa interações. Foi o WhatsApp, o Instagram, etc… O Facebook sabe quase tudo que conversamos.

E quais as consequências disso? Você pode pensar que você está apenas consumindo informação, mas toda a informação que você consome é curada por um algoritmo.

Não estou aqui afirmando que esse algoritmo tenha essas intenções, e nem que a empresa tem essa intenções. Dou o beneficio da dúvida a eles, acredito no que a empresa diz fazer. Mas há os efeitos colaterais!

Vamos aos efeitos:

  1. Usuários interagem dentro de bolhas, e quando são chocados com a realidade se assustam (ódio)
  2. Usuários não interagem com todos os tipos de opinião, mas dentro da bolha. (polarização)
  3. Fake News podem ser direcionadas para grupos específicos, baseado nas informações da Graph API, e influenciar a opinião pública

Conclusão

O mundo dos anos 20 não é o mesmo mundo dos anos 10! Algo realmente estrutural mudou. A praça publica não existe mais, foi sequestrada pelo Facebook e a empresa não se responsabiliza por manipulações que podem acontecer.

A Sociedade Tecnológica no Século XXI
(série de 3 partes)

A Rede Social e a Democracia
O que é Virtual?
The Internet is FREE!
Originally published March 06, 2020